Marli Nishidate




Quando criança, o mundo cabia nas minhas mãos. Barro, bambu, madeira, retalhos de tecido, latas vazias — tudo virava brinquedo, sonho e invenção.
Na escola, as aulas de educação artística abriram portas de cor e textura: macramê, pincéis, tintas, combinações que despertavam mundos.
A vida adulta chegou com seus pesos e urgências. Mas quando ela te derruba, é curioso: você volta para aquilo que é seu, para o que aprendeu quando o tempo ainda era generoso.
Foi assim que comecei a revisitar minha própria história, a caminhar pelas raízes da minha cultura.
Na cozinha, primeiro vieram os doces, as geleias e os pães; depois, o cheiro e o sabor da culinária oriental, como um abraço herdado dos meus antepassados.
Hoje, busco que cada receita carregue não só afeto, mas também a terra onde vivo: utilizo frutas, sementes e produtos da região — muitos deles nativos — para criar sabores que falam de pertencimento e memória.
No artesanato, o fio nunca se perdeu: já havia uma história construída, e dela nasceu a associação que hoje mantém vivo o espaço onde estamos — um lugar onde memória e criação se encontram todos os dias, muito mais que alimentando o corpo, encantando a alma.